bailarina, saudade de chumbo.


Sapatilhas, meia fina e um laço bem feito, perfeito. Cartilhas de lembranças esquecidas, não vividas. Rodopios de sonhos numa caixa rosê, de colo de vó,  de cheiro de infância de coque no cabelo, vai ser. Uma, duas aulas e desistência, impaciência infantil. Depois, moça polida, crescida e vontade juvenil, de ponta do pé, de pliê de balé, de riso solto feito sopro. Vestida de tule, saia rodada, pra girar com o mundo, balançar com o vento, feito par - mas é essa saudade feito chumbo, da criança leve, filha de pluma, dançarina no ar  - no lugar. 

Da bailarina que nunca foi, da sutileza que já se foi, da dança bonita, menina bordada de renda, de flor que voa, sabe qual é? Do laço de fita assoprado no ar, poesia infinita. É essa falta Seu Soldado, de chumbo, que prende ao chão, feito pedra, é ela que rouba essa leveza toda e impede de sair bailando feito brisa pela janela, borboleta a voar.  Ah Seu Soldado, esse chumbo que prende ao chão, toma como teu e fica firme no coração, no colchão, deixa que a bailarina assopre uma oração, canção de ficar juntinho pra cobrir a saudade de carinho e se perder no teu peito, doce de tanta afeição. Redenção. Condição é fazer cafuné, bailarina passos de balé pro soldado de olhos de mar, de beijos de chuva, pra cuidar da leveza que é amar. Flutuar de amor menina, só assim que há de ser, bailarina.




saudade de chumbo é essa 
do bolinho de fubá da vó,
de chuva,
de céu

Preto e branco,

A alma nasceu do passado, impressa na película de um filme mudo e em preto e branco dos anos vinte, como se carregasse nos ombros o peso da idade avançada, paciência curta e urgência em viver. Uma maturidade precoce, as vezes aguçada demais, as vezes tímida demais, as vezes não servindo de nada. Ah, mas se a vida fosse mesmo um filme, eu seria uma personagem francesa, poetiza talvez, dama da corte, luvas e véu, quem sabe ou senão, dona daquele bistrô vintage da esquina, de jardineiras na entrada e mesinhas ao redor. Prefiro. Moça européia de namorico com o tal do rapaz da mesa do canto da janela, das quatro da tarde, do pedido do chocolate quente com chantilly, cereja no topo. Preto e branco, só com coração vermelho, bem vivo, que é pra namorar o moço num piquenique de primavera à tardezinha lá no gramado daquela torre do Eiffel, babel. Papel pra eu escrever uns versinhos e colocar na aba do chapéu, letrinhas bordadas e amor impresso no céu. Preto e branco, mas um punhado de cores quando o moço vem com o sorriso manso e sussurros, faz da alma velha uma criança, de olhos de glitter, chuvisco no ar. Preto e branco, de valores bem antigos, preservados, tesouros guardados na roda gigante do quintal. Preto e branco e mudo, silêncio, shhhhhh. E vezenquando a voz do moço, um boa noite de levinho, então, canção de ninar. 




Um tema, um desafio, um escrito.

Letra de flor


Peguei um livro, desses inacabados, esquecidos num canto qualquer do armário e me deparei com a tua caligrafia miúda “Para a menina bonita bordada de flor” e só, nem sequer inicial do teu nome. Folheei pra ver quão longe eu teria ido e vi, manchando as páginas, uma flor seca, gordinha de saudade.
Aquela flor da cerejeira que caiu molhada de orvalho sobre meu colo na tarde de da nossa despedida lá na casa do campo. A cerejeira chorava suas flores enquanto eu te via já bem distante, indo embora, e ao mesmo tempo ficava ainda tão firme no meu peito, mantendo morada no meu coração.
Como eu podia te amar tanto? Como eu podia te querer tanto? Fiquei ali, te vendo partir. Meus olhos secos, como quem não se importa. A flor, guardei comigo. E estava ali, perdida naquelas linhas que tu me deu num verão sereno, naquelas linhas com sabor de café da manhã.
E num dia frio como hoje, diferente de tudo de mais caloroso daquele dia de estação de sol, a memória me trai e te tira de dentro do armário empoeirado de lembranças.  Como se num momento de distração você se achasse no direito de mostrar que a cerejeira continua no mesmo lugar e que a sombra dela, ainda é pura ternura.  Mas você quis levar seu coração e me deixar em troca essas linhas, desse livro que comprou por comprar, só pra deixar uma dedicatória de letra miúda e me chamar de sua flor. 

contando um conto com a maria bonita, bonita mariaMaria Fernanda.). 

Gordurices.



Se fosse possível, eu daria um jeito de morar dentro da geladeira juro, ou da dispensa, ou do armário, ou onde houvesse bastante comida pra matar minha fome eterna, de leão. Nasci com o pecado da gula e com o estômago quase de avestruz, e ando pecando muito desde então. Cresci com essa mania feia de comer sem parar e trouxe essa compulsividade gastronômica pra tudo na minha vida. Parece que tudo é pipoca, daí encho a mão e como até chegar o fim, até ficar vazio pra eu ir lá encher de novo o pote. Parece que meus planos são feitos de milho, e esquentam, e estouram, e pulam, daí eu tenho que comer sem parar, depois vem a digestão, pra ponderar e colocar os pés no chão, e avaliar o quanto tô cheia, empanzinada de sonhos. Mas aí dona realidade aparece feito melancia pra gente, um chá aguado e encaroçado de puro desprazer, aí depois preciso até de lavagem estomacal, que é pra tirar todo esse acúmulo de idealizações do dia-a-dia e comer um querer mais saudável, mais aceitável.  É que eu como com os olhos, sabe como é? Tudo que minha visão permite enxergar, vai pro estômago da minha cabeça, e fica ali, até eu ter capacidade de digerir, tirar as vitaminas que ativam a criatividade e jogar o bagaço fora pra dar espaço pra mais e mais e mais outras coisas.  Mas o problema é que a insaciedade constante não me deixa descansar, fazer a sesta. Porque além de tudo, sou preguiçosa, tenho esse outro pecado que faz com que tudo ande devagar, contrariando as frenéticas formiguinhas famintas dentro de mim.  E pior, tenho olho gordo, no melhor sentido da expressão! Quero comer com os olhos tudo o que há no mundo de mais doce e terno. Aquelas gordurices bem coloridas sabe, que fazem sorrir nosso dia? E depois de tudo isso ainda confesso que sou viciada. Eventualmente me encontro bêbada por aí, depois de tomar um porre daquela sopa encadernada de letras e fico absorta em pensamentos depois de sentir aquele cheiro hipnotizante de página nova e de página guardada. Sou um saco ambulante de guloseimas sentimentais. Sinto a necessidade de matar minha fome a cada minuto, pra engordar a alma com pirulitos de ternura, lambuzar o coração só de muito carinho em calda e lotar o prato da nossa rotina com bastante bolo recheado de gentileza pra olha só: emagrecer a grosseria obesa desse mundo! Infinitos quilos de algodão-beijos-doces pra alegrar a leoa esfomeada que chamo de vida.

matraquinha.



O sol pode até estar nascendo lá atrás da montanha, mas meu sono continua no ápice da bondade. O despertador precisa ser avisado que precisa tocar mais de três vezes, fora a soneca de cada um, pra que meu corpo posso pensar em obedecer a mente, se espreguiçar e enfim, levantar pra mais um dia dessa rotina corrida que tem se tornado a vida da gente. Junto acorda uma contraditória  mania de querer tagarelar sobre tudo e com todos por aí, como se o abrir dos olhos fizesse com que a faladeira habitante do meu corpo despertasse do seu sono tranquilo. A língua parece que ganha vida própria e permanece o dia todo assim, descontrolada. As vezes é necessário usar a chavinha imaginária, trancá-la e jogar a chave bem longe, que é pra ver se o silêncio respira um pouquinho, aliviado. Sozinha na sala de trabalho, vez ou outra me pego falando sozinha, repetindo alto os afazeres do dia, os planos do amanhã, o lanche de mais tarde e imaginando a tal sonhada noite de sono logo mais, tamanha necessidade que é exercitar esse músculo bucal. Parece que o espírito da Emília ficou impregnado na minha vida, e que eu também engoli a tal pílula falante do Doutor Caramujo e que acabei de descobrir as palavras e que preciso reparti-las com todo o resto do mundo.  O namorado, coitado, quer ver um programa na televisão, escutar o jornal, prestar atenção no trânsito, mas a falação desenfreada continua até que um beijo é roubado ou um olhar repreensivo fica ali no ar. Mas incrível que essa agitação toda fique restrita apenas a língua, pois o corpo é arrastado ao longo do dia, preguiçoso que só. Duas faces de uma mesma moeda, e eu ficando louca entre elas. Sob a luz do luar ou um barulho de chuva, vou me aquietando, a mão buscando a outra mão pra segurar, e um ombro pra deitar todos os sonhos e descansar, cúmplices do silêncio, calmaria lunar. 

Daí escrevo

Quando criança costumava chorar demais, e confesso que as coisas não melhoraram muito de lá até aqui. Sabe, meu  copo d'água de emoções é pequeno e transborda fácil em rios de sentimentalismo. Uma novela mexicana completa correndo nas minhas veias e a platéia sempre sem  paciência de acompanhar o desenrolar desse dramalhão feminino. Daí escrevo. Escrevo porque o papel é mudo e não reclama muito das palavras confusas que redigo em cima dele. Escrevo porque o papel compreende mais as tristezas e mazelas da alma da gente, que as pessoas de carne e osso. Escrevo porque ele não reclama. Vezenquando escrevo chorando também, que é pra não ficar nada guardado no peito. Escrevo pra algemar a tristeza nas palavras pra ela virar poesia, mas não sou muito talentosa pra isso. Nem pra tristeza, nem pra poesia. Daí escrevo doçuras. A escrita eterniza, é pra sempre. E meu riso fácil prefere que ele seja eternizado naquela folha em branco. Ele quer se sobrepor à qualquer sentimento que faça doer o peito e me pede os lápis multicoloridos pra enfeitar a melancolia, pra ela ficar sorrindo. Escrevo todo sentimento que passa aqui por dentro, e as angústias não ficam de fora, mas a alegria maior que anda invadindo minha vida a transforma rapidinho em palavras suaves, sem peso e pesar. Guardo meus rabiscos num pote de açúcar que é pros momentos de depressão não chegarem perto, que é pro sentimento virar melado e a tristeza ficar no passado. Daí escrevo, munida do poder das palavras, que é pra algemar a tristeza com sorrisos e condená-la a prisão perpétua com a felicidade.



(desafio de segunda-feira, do grupo blogueiros.
tema: sem talento pra algemar a tristeza. )

feliz contemplanos.




Em meio ao inferno astral mais pra paraíso de todos os tempos começo a escrever o mais clichê de todos os temas: todo o ritual que envolve o sopro de uma vela a mais, uma vez por ano. Me dou conta de que em poucos dias estarei deixando para trás mais uma idade vivida assim, do nada. Como se fazer aniversário estivesse ligado à um alarme mental, que quando se aproxima a data, uma luz se acende e bum, você descobre que ficará mais velha. A gente fica pensando em tudo que passou nesse tempo entre uma idade e outra, em tudo que fizemos e no que deixamos de fazer. Comigo cresce uma sensação de tempo esgotando que só passa milênios depois. Desde criança foi assim, não conseguia entender porque soprar aquelas velas num bolo podia significar grande coisa, mas significa, por mais que a gente negue elas têm seu valor. Ninguém canta 'happy birthday to you' pra nós por nada, nós encerramos um ciclo, outra etapa. Subimos mais um degrau na escalada da vida, ou será que descemos? Confesso que tenho medo, e por isso não tenho refeito muitos planos. A vida trata sempre de me surpreender, rabiscar meu rascunho e colocar diante de mim um traçado mais bonito que eu havia imaginado. Mas tenho medo assim mesmo, medo de não ter tempo.  Tempo pra fazer tudo que eu mais queria nessa vida, e não ter outra pra compensar. Então eu queria mais desse ano que começa pra mim, um dois seguido por um. Queria mais de mim. Queria aquilo que a gente não costuma ganhar de presente, uma bússola que me apontasse os caminhos certeiros e uma ampulheta que me desse o poder de parar o tempo quando eu quisesse um minutinho de paz. Queria poder ir na Livraria Café e pedir a atendente que adoce meu café com leite e as pessoas, e que coloque menos egoísmo e mais senso de humor na receita do pão de queijo. Queria poder ir na feira das flores e pedir um ramalhete de dentes de leão pra soprar poesia por aí.  Queria terminar melhor este texto, mas ficou clichê demais pra ter um final decente. Na verdade, o que mais ando pedindo por aí, é sabedoria pra lidar com tanta coisa nessa correria da vida, pena que não vem em compotas e nem vende em lojas de departamentos. Sabedoria a gente adquire a cada sopro de vida. Sabedoria vem com vivência, convivência.  


( A poeira anda espessa por aqui não é? Não é por falta de sentimentos para traduzir, é desordem cerebral mesmo. Aos poucos, o Pratododia voltará a ser meu melhor amigo, estamos meio em crise mas é por pouco tempo (espero!). Um beijo pra vocês que sempre vem nos visitar e deixar um beijo carinhoso, beijo macio pra vocês ;* )


Nosso tempo.





"és um senhor tão bonito... 
tempo, tempo, tempo, tempo. "

De uma hora pra outra a gente percebe que o tempo passou voando e mesmo assim permitiu que tudo acontecesse na sua hora, calmamente. Foi possível viver intensamente cada segundo, cada nova conquista desse nosso mundo. Você estava por perto o tempo todo, embora eu tenha me mantido distante no começo. Foi demais fazer parte de uma escuridão que sempre me afastava da realidade, que me colocava em meio às distorces da vida. Por mais resistência e dificuldades que coloquei diante de ti, foi impossível impedir você de vir com todas essas sensações que me trouxeram paz e equilíbrio e hoje não há como me conter, é tanta alegria, tanto companheirismo, é tanto amor. É tanto, tanto.... É tanto texto escrito também, palavras carregadas de amor sincero, inteiramente pra você.
Mas que eu fiz muito charme, ah, eu fiz. Você sabe né, hoje as pessoas andam completamente perdidas de si mesmas, de outro alguém. Queria ser sua, única e que você, com esse seu jeito tão especial, tão cativante, tão diferente de tudo que há nesse mundo moderno quisesse viver pra uma eternidade ao meu lado. É como se você também plantasse uma semente de amor verdadeiro todas as vezes que levava um botão de rosa vermelha pra mim e como se a cada dia, a cada novo olhar de cumplicidade essa semente florescesse o mais belo sentimento, que foi e é renovado a cada pulsação do coração.
Hoje, nosso relacionamento é alicerçado no que vivemos, neste pouco e intenso tempo. Nas nossas dificuldades, nas adaptações, nas descobertas de personalidade, nas diferenças, nos nossos planos e sonhos, no sentimento que cresceu conforme as experiências eram vividas, sempre juntos, lado a lado, companheiros. É contigo que eu quero estar e é assim que quero continuar, mãos dadas, prontos pra tudo, e esse seu sorriso dentro do meu olhar, o que tenho de mais bonito.

Texto com o tempero da querida Marina. :)
Imagem: Flickr : J.Fields.


Fraternalmente amor.


"Menina, vou te guardar comigo."

Sempre sonhei muito, vivendo num universo paralelo que só criança pode inventar. Quis companhia, que demorou anos pra chegar. A irmã caçula ainda frágil não podia brincar. Quis protegê-la, desde sempre e para sempre. Incorporei uma adulta responsável pela mais nova vida que encantava nossos dias, quando tinha apenas oito anos vivido. Assessorei todo o cuidado que tinham para com ela, buscando acumular aprendizado na bagagem. O bebê cresceu, andou, falou: 'nana' e meu instinto (ir)materno se fazendo cada vez mais presente. Ela passava mais tempo sob o meu zelo e então, fui me achando no direito de educá-la também. Fui grossa, ríspida e extremamente exigente com uma criança recém saída do berço, que mal aprendeu a falar direito, que ainda pedia pra ‘polucar o bu’ (procurar a chupeta/bico) e que me via como inspiração. Hoje, depois de tanto tempo, vejo-a crescida, quase mulher e me arrependo de tantas coisas feitas, ditas e omitidas. Eu poderia ter sido mais carinhosa e menos ditadora, mais companheira e menos irmã mais velha. Cometi erros graves quando pensava que nossa criação deveria ser a mesma, que nossa personalidade tinha porque tinha que ser a mesma, não foi e nunca será. Na maioria das vezes, adquiri o título de irmã-chata-que-só-pega-no-meu-pé e cheguei a ouvir dos pais, tios que não a amava por isso, mas claro que não era verdade. Eu a amava com todas as minhas forças, e amo. Amo a menininha que quase se afogou, antes de eu entrar na água sem saber nadar e a salvei. Sou apaixonada com a convicção com que ela trata as coisas na vida, mas brigo pra que ela diminua o tom, não responda, saiba ouvir mais, sente direito (igual mocinha), respeite a opinião, respeite as ordens, respeite os pais. Temo que ela vá sofrer um dia, as pessoas são muito cruéis quando querem. Hoje, sinto tantas saudades. Deveria ter brincado mais de ser irmã e deixado este lado materno um pouco de lado. Deveria mesmo ter sido menos rígida e mais leve, mais compreensiva, mais amiga. Deveria ter valorizado mais aqueles momentos que só criança tem, inéditos.  Eu poderia ter tido mais paciência com as vezes que fora malcriada, deveria ter conversado e não gritado. Gritei muitas e muitas vezes, e se preciso, ainda grito, grito amor por trás de tudo isso. É cuidado, é zelo. É medo de não prepará-la pra vida, esta que nem eu sei como age. Agora, busco ser a amiga mais velha, pra orientar, pra conversar, e pra acima de tudo ouvir. Agora, sonho com essa amizade, sonho com esse amor tão real, tão verdadeiro, tão nosso.  Essa princesa, foi meu maior e melhor presente, melhor do que eu esperava baby.
 

no vento,





'Palavras, palavras

Palavras, palavras

   Palavras ao vento' 
Cássia Eller


O céu tem estado bem nublado, o clima frio como gosto, a chuva caindo fazendo graça e exalando cheiro de terra molhada, tudo propiciando produtividade. Mas ando arrastada pelo caminho já decorado, posso ir de olhos fechados ou com a leitura em mãos, com um sexto sentido avisando onde há perigo, se devo parar ou avançar, a verdade é que tenho vagado pelas ruas. E as situações cada vez mais estagnadas no tempo, sem soluções previstas e penduradas no prego, pendentes, e eu aqui in stand by, preocupada demais pra conseguir qualquer sucesso, nem escritos, nem desenhos. A chuva continua caindo, linda, gostosa, refrescante e junto dela podia cair do céu também umas gotas de criatividade direto na minha alma, pra fazer algo que preste. Preciso dela aqui, que há  mais de um mês anda abandonado, quase de portas fechadas esse meu restaurante. Lá no Atelier, debruçada na prancheta e em meio a lápis multicoloridos, para fazer as curvas aparecerem no manteiga, belas, bem feitas e adequadas. O mundo conspirando a favor, mas seu talento não ajuda: não evolui. Dai desisto. Na verdade, devo desistir umas mil vezes por dia, acordo desistindo de levantar e por aí vai, tenho que parar com isso, repito tentando gravar na parte mais importante do cérebro, mas desisto porque esqueço tudo mesmo.
Durante o percurso diário decorado escrevo mil textos e projeto as mais belas edificações, mas antes de chegar ao meu destino já não me lembro de nada. Escrevo por todo o caminho na minha mente-máquina-de-escrever, com movimentos firmes nas teclas mecânicas, escrevo sobre o ipê de flores roxas do boulervard da avenida principal, da irmã mais nova e a saudade enorme, dos inúmeros dias maravilhosos ao lado do namorado, me declaro mil vezes em um passo só. Escrevo sobre o café-livraria que desperta meus sentidos, e a vontade que tenho de me sentar e escrever lá dentro, tomando aquele chocolate gelado. São muitos escritos no caminho, palavras datilografadas com cuidado em segundos, mas na pressa para chegar no horário deixo os papéis impressos da memória caírem nas esquinas, chego no meu destino sem arquivo mental algum, um descuido só. Em frente ao computador, o ócio grita autoridade. Abro uma vez a caixa de texto, e  em seguida a fecho. Repito a ação várias vezes, tentando me recordar da metade das frases escritas a partir do momento que tranquei a porta de casa, nada: já era. São as palavras minhas, aos ventos da Cássia. Palavras, ao vento. 


Tentei tirar a ferrugem das letras, quem sabe na próxima?! 

é mar, maré


Deixo o rio passar tão voraz, veloz.
O  Teatro Mágico

Bem distante de qualquer calmaria, o ambiente marítimo que tenho oferecido quase sempre é este de maré alta, onde minhas palavras andam naufragando, vezenquando atitudes perdidas entre os corais da mesmice. É culpa desse melodrama mexicano que corre nas veias, desse momento frágil de mulher, dessa velocidade dos ponteiros do relógio, desse calor que repele abraços, desse cansaço que dorme antes do beijo, dessas frases desviadas do ouvido, dessa pessoa que aqui redige: criminosa. Ando fazendo bagunça, arruaça e até vandalismo por miniaturas de problemas, reclamando demais. Adquiri seu ombro amigo por usucapião, fiz morada, jardim com as cercas branquinhas e você me cedeu grande parte da sua paciência outra vez. Escrevendo aqui meu rosto se enrubesce de embaraçamento só de pensar o quão patética estou sendo por ciumes tolos, carências infelizes e cobranças estúpidas, perdoe-me por tudo isso.  Engraçado que você possui ciência de espantar toda minha bravura, tira toda minha armadura me pedindo pra ficar seriamente com raiva, sem sorrisos e covinhas a mostra, não resito: meu riso é fácil demais contigo. Estranho meus olhos transbordando água salgada a todo momento, é  essa mania de ser a ferro e fogo e  precisar sentir tudo como é: intenso, então perdoe a exagerada jogada aos seus pés. Definitivamente eu sei o quanto posso ser melhor e te surpreender,  mas você é sempre mais ágil, suas rosas vermelhas, seus cartões escritos a mão, seu dom pra cozinhar pro leão que mora na minha barriga, seus mimos, seu carinho, seu cuidado, aconchegos pro meu coração.  Perdoe-me pelo tempo lento para melhorias aqui e ali,  minhas ondas vêm severas muitas vezes, eu sei, mas olha aqui nos meus olhos: elas vêm pra você com todo amor dos sete mares.







soprano

 Basta as penas que eu mesmo sinto de mim. 
Junto todas, crio asas, viro querubim.  

O Teatro Mágico





Alguns dias acordam estranhos e prometendo esquisitices, e a gente fica nessa sem saber como agir.
São manhãs nada nubladas do lado de fora e completamente cinzentas dentro do peito, tão nebulosas que embaçam a visão e você não quer abrir os olhos por nada. Não chove lá fora faz tempo, mas por dentro há um temporal incessante, insistente, doído. Seu bote salva-vidas está a postos, mas você não sabe como usá-lo: vai se afogar nas lágrimas. Há uma corda bem aqui pra você segurar, mas sua força é pequena, cansada. São dias que te acordam com um tapa na cara e um balde de água fria, após noites mal dormidas e palavras mal ditas, malditas.

O sol brilha através da sua janela rindo da sua cara, rindo da sua sensibilidade enorme e te chamando pra fora, pra vida. Seu sonho é alcançar a persiana e fechá-la sem se levantar, esconder do brilho que não combina nada com seu estado de espírito agora. Hoje quer curtir essa fossa imaginária, esta dor suportável que você não suportou, é fraca.
Sabe, amanhã é outro dia, as pessoas que te machucaram ontem sorrirão pra você e a dor que você sente parecerá ridícula. Só você se machucou, só você sofreu, só você deixou seu dia passar em branco, em cinza. Vamos, enxuga esse rosto, cesse esse soluço e vai lá se derreter debaixo daquela estrela gigante ali fora. Não se entregue tão fácil, por quase nada, por uma culpa que não é sua: te jogaram ela. Acredite que tudo se resolverá, pra eu confiar nisso também. Saia e sopre aquele dente de leão da pracinha: deixe que ele leve toda a tristeza inútil pra onde ninguém possa achar. 








Palavras confusas, desconexas.  Mas vem daquela necessidade grande de compartilhar. Desculpem os atrasos, falhas e palavras vagas. 





so sweet.

s




Enquanto estou aqui deitada na minha cama criando coragem pra terminar aqueles croquis sem inspiração alguma e comendo a metade do tomate-maçã com sal, pensei em quanto tempo faz que não escrevo a você, a nós e me veio a mente aquela história de você achar o caminho lembra? Nem eu imaginava que seria tão fácil fixar morada aqui no meu peito, nada perfeito e inteiramente complicado: mérito totalmente seu. Corajoso como só você sabe ser, se dispôs a enfrentar todos os dragões vigilantes da minha torre (que eu contratei antes de me prender) e me tirou de lá antes que eu desacreditasse em tudo: me salvou.  O sal do tomate fez arder aquelas aftas mal curadas e lembrei que batalhei também, pode não estar assim explícito, mas lutei contra meus pensamentos negativos, contra as cicatrizes, contra o que eu acreditava ser o fundo do poço: solidão insistente.  No auge da ardência da ferida bucal lembrei o quanto rezei sozinha no quarto, o quanto chorei sufocada por ser tão fria, iceberg pro seu Titanic. Foi nas caladas das noites, entre uma conversa e outra que eu me culpava por tanta indiferença ao sentimento que batia insistentemente à porta; a melhor que destranquei. Sabe, estou aqui morrendo de sono às três da tarde, torcendo pra que faça o frio sonhado do inverno e que caia uma chuva pra terra cheirar molhado e esperando o sol se pôr para poder vê-lo, esperando sentir frio pra te pedir um colo. É, ando meio carente eu acho, o lado emotiva gritando dentro de mim, mas não me leve a mal, não choro de tristeza, é necessidade mesmo. Entenda, é como o chocolate que me faz bem, é como redigir aqui pra que o que fica guardado poder se mostrar presente, nunca temos tempo pra conversar tudo. Meus croquis estão ali sem sequer um traço que faça algum sentido: hoje acordei sem inspiração pra arquitetura, sonhei que você tinha me dito um não e me dado um pé bem na bunda, e doeu.  A verdade é que nossos planos estão tão sintonizados, se sentindo a vontade com a realidade, tão próxima e nem mesmo pesadelos me fazem descer daqui de cima, onde ando sonhando alto. A verdade é que o que sinto por você é doce como o primeiro cartão que recebi de você: so sweet. A verdade é eu sou apaixonada por você: amor de verdade. Sentada aqui vi nossa história passando como um filme, e dei risada quando revi cenas que meu lado bobinha vingou, e quando fiquei brava e você sorrindo me tirava a razão. Sabe, meus desenhos estão ali esperando que eu dê um pouco de cor a eles, mas você me tomou toda a vontade hoje. Minha única vontade em meio a estas cólicas diabólicas é te esperar pro café da tarde, te servir umas torradas e beijos e dividir a caneca de capuccino.









pai,






Ontem eu te liguei para efeito contrário papai, porque sempre sou eu quem escuto o celular tocar "Three little birds, sat on my window and they told me I don't need to worry", hoje um toque a cobrar e a ligação retornada: nunca uma canção tocou meus ouvidos tão certa, percebi depois. Gostaria de dizer tanta coisa, aproveitar seus bônus e dizer o quanto sinto saudades da sua companhia e agradecer por tentar junto comigo preencher este vazio entre as inúmeras ligações diárias, nossa doce rotina, só nossa. É na distância que o nosso amor se solidificou, e nela que se tornou explícito, demonstrações puras nos finais de conversa, misturadas com o tchau, só nossas: tchamo. As coisas não estão sendo fáceis, o senhor sabe que me desespero e deixo um pessimismo me consumir: atordoada. Mas ontem papai eu engasguei por isso fiquei um tempo muda, absorvendo as suas palavras de apoio, absorvendo esse seu positivismo e tentando captar a intensidade da sua fé na minha capacidade: chorei. Sem perceber meu pranto ouvi o pedido que eu não me sacrificasse pelo senhor, pelo dia dos pais, por presentes, justificando que o maior presente eu o dou diariamente, sendo filha, e proporcionando carinho, respeito, obediência. Quis pedir que parasse antes que meus olhos matassem afogado o celular e eu perdesse a ligação. Como não me sacrificar por você papai? Você que acima de tudo me deu a vida e não mediu esforços para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje, em constante aprendizado. Como não retribuir cada milímetro do amor que a mim foi doado, inteiro? Meu pai não é herói, ele está num patamar superior, bem alto.
Gostaria que pudesse ver o orgulho que me refiro a minha (futura) profissão: meu pai, minha inspiração.  Tenho seu sangue, seu espírito conservador (quase todo), sua altura, seu jeito de lidar com certas coisas, sua expectativas. 
 Herdei mais que seu DNA, mas não herdei teu time de coração, o que não foi uma decepção: hoje, motivo de brigas de mentira, uma diversão.Aqui, longe do seu sorriso, fico pensando no tempo perdido, nas histórias não contadas, nas piadas sem gargalhadas, nas músicas não partilhadas e meu coração dói papai, dói de tanta saudade, dói de tanto amor. Dói porque nem sempre fiz tudo o que podia pelo senhor, enquanto que o oposto sempre acontece, sempre. Desde quando eu era aquela menina magricela de marias-chiquinhas loiras e você ainda usava aquele bigode estranho, ouço sua voz dizendo que se pão faltasse, da sua boca tiraria pra me dar, pra suas filhas: primeiro lugar. Cresci com medo do escuro, correndo pro meio da sua cama pedindo socorro, acalmada com suas histórias do senhor cavalo que caiu no buraco, só nossa. Cresci protegida pelos seus braços e abraços tímidos, sua perseverança. Cresci vendo sua amizade com meus amigos crescer, simultaneamente a minha. Saiba meu pai, que sinto muito orgulho por tudo que o senhor é, seu caráter, sua honestidade, seu bom humor sempre são reconhecidos, e sinto cada vez mais vontade de ser assim, como você: coração puro e enorme e de um dia possuir toda essa beleza que o senhor cultiva dentro dele. Saiba também que mesmo achando sua preocupação um exagero, eu acho uma graça, só nossa. Saiba papai, que eu tenho esse jeito as vezes desligado, mas meu amor  por você eu nunca tiro da tomada e tudo que faço, planejo, realizo é pensando em você, na nossa família.  Saiba também, que este escrito não demonstrará o tamanho do meu sentimento de filha, porque ele é imensurável.  Agora, só tenho a agradecer imensamente meu pai, por tudo mesmo, por me ajudar a dar o primeiro passo em tudo que é novo, e por sempre segurar minha mão quando estou pra cair. Obrigada por me ensinar a essência de viver: o valor da família, da nossa família. O senhor, a mamãe e a caçula, são meu maior presente, e seu dia não é só no segundo domingo do oitavo mês, seu dia é contado pelas nossas conversas longas, nossas confidências, só nossas. Eu te amo, acima de qualquer outro amor. 





Sai de mim

Alô querida? Aguarde um momentinho que agora não estou perdendo tempo com bobagens.
Não, não preciso saber quem você beijou noitada passada, ou se chegou ao finalmente, e nem estou interessada neste seu papinho de uma só razão: competir com minha vida.
Se conseguiu o emprego dos sonhos, ótimo, mas nem venha tentar se gabar pro meu lado porque meu lugar é logo ali na frente: camarote. Também não adianta tentar fazer um dossiê sobre mim, os segredos estão muito bem guardados, secretos.
Não, não estou mudada, apenas abri um pouco mais os olhos com esse negócio de inveja sabe, isso quando pega, não acaba mais. E me arrisco a dizer ainda, que não há pessoa nesse mundo que não tenha experimentado o gosto amargo deste veneno, colocado em nossa vida, boa noite cinderela. 
Por que cargas d'água quer tanto que eu me ferre hein danada? Vai me diz, vira homem mulher. Porque cobiça tanto o que é meu, ou o que quero que meu seja?!
Não, não pense que se você tentar encher minha cabeça de minhocas fará com que eu desista de vencer, sonhar: ilusão, sou mais forte que você pensa. E não sou assim porque as pedras no meu caminho tenham sido mais que eu esperava, sou assim porque meu Deus é maior que sua inveja, que seu olho gordo, muito gordo, rolando de tão gordo. 
Vem cá pr'eu te ensinar um regime mágico pra estas pupilas obesas que tanto olham minha vida, enquanto a sua vai passando sem sua presença. 
E não precisa pensar que desejo mal a você, apenas espero, espero muito, que esqueça um pouco essa coisa de duelo comigo, uma rixa silenciosa que fui descobrir a pouco: decepcionada. 
Aproveita e faz as pazes consigo, se ame mais um pouco pra deixar de pensar que tô querendo ser você, quero não querida, obrigada. Mercadoria estragadinha faz um mal danado pro estômago já inflamado.  Aproveita e comece a  se vestir mais por dentro sabe, pra depois se borrar de tanta maquiagem, como ouvi uma vez de um sábio: meu melhor vestido é o avesso. Encare o desafio que nesta briga vou cair de cabeça viu, tenho tanta coisa bonita semeada aqui dentro - feias também - se quiser, te dou uma mudinha da árvore das virtudes, é um bom começo. Aproveite, e cultive também os sentimentos contrários à essa inveja tão boba que anda demonstrando, põe a mão na terra, esqueça as unhas feitas - compradas - e cultive. Troque sentimentos miseráveis pelos que realmente fazem sucesso. E não me venha outra vez com as suas historinhas fantasiosas que usa apenas pra me jogar lá no fundo daquele poço ali. Não tente fazer com que eu me sinta a pior pessoa do mundo. E não tente provar pro resto do mundo que sua beleza é estonteante se por dentro anda podre. E agora, escute: não quero seu cabelo, seu olho, seu sucesso, seu corpo,sua vida, quero a minha vida de volta, longe dos seus olhos gigantes, quero é paz de espírito e muito sal grosso.



Ana Flávia Sousa Silva

marinando

O sol nasceu sob aquela chuva mansa, tão mansa que você sabe que vai demorar a passar. Mariana acordou preguiçosa, mas feliz , a chuva sempre lhe trazia serenidade pra descansar os pensamentos que fervilharam tanto naqueles dias de sol. Recesso. Estranhamente, cansou-se rápido da paisagem vista através do vidro sujo da janela daquele quarto, vazio.  Mesmo tão amiga da solidão e de cada um dos seus lápis multicoloridos, o dia se entristeceu de repente.  De nada servia os dois mil e um traços em cores nos mais variados rascunhos de sonhos colocados ali, na velha escrivaninha. Neste dia tão peculiar, em que nada se encaixava no normal ela viu ao se olhar no espelho que foi ela quem deixou o dia triste. Comprovou ao ver que as lágrimas que eram refletidas diante de si se misturavam com a imagem da janela, pingos de chuva se espalhando naquele vidro, tentando limpá-lo a todo custo. Pobre chuva, mal sabia que a sujeira estava por dentro, impregnada. Mariana sabia que poderia mudar aquilo tudo, mas não sabia como, quando e onde. Desceu correndo as escadas do sótão para se embriagar de choro de nuvem, chuva, chuvisco. Temporal dentro de si. Havia um lago, cheio de vazio. Não havia pier. Havia Mariana, cheia de tanta coisa. Vazia de paciência.  Havia muita confusão nesta quantidade inimaginável de vendavais que tentavam sem receios, e muito menos pudor levá-la pr'aquele abismo infinito de angústia. Mariana tomou um porre daquele líquido caído do céu e queria férias de algo que não compreendia. Diante do lago da casa antiquada como só Mariana sabe ser, ela se viu numa pequenez que fez com que sua estrutura, tão bem planejada e rígida até então, estremecesse. Havia medo em cada gota minúscula de orvalho da alma. Sentiu todo o oceano que guardava há muito  nas profundezas de seu ser, e num ato quase insano o quis dividir com o lago. Precisava. Sem forças para conter os olhos tão aguados de mar, abraçou-se ao vento, antes forte, leviano. Agora, par dançante. Pôde contar com o carinho que a brisa gelada acariciou seu rosto e, aos poucos a maré foi baixando. Tudo melhoraria. Ela se sentiu pronta a encarar a dura tarefa da limpeza daquele vidro, que tanta gente quis sujar, borrar. No caminho, juntou pedras que foram jogadas, levou pra dentro, para com elas começar a construir seu castelo. De cartas, pode ser. Escada para alcançar cada um dos sonhos. Depois, por trás da janela outra vez translúcida, veria as nuvens dando licença para o sol brilhar a tardinha, pouco antes de seu espetáculo, aquele sol que parece que se põe todo dia dentro da gente, tão bonito que é. Libera sorrisos, antes prisioneiros. Veria aquele encontro, entre o astro rei, sonolento, pronto pra dormir, e a vida noturna, brilhante, da dona lua.  Acreditaria. Ao alvorecer, Mariana transbordava em mar, e o mar de alguma maneira, possuía uma parte dela. Agora, anoitecendo está, e é Luana, cheia de luz, cheia de brilho do luar. Queria acreditar. Não havia uma versus a outra. Ambas eram componentes de uma mesma equação, resultando em força, chuva, sol, lua. Era possível. Andam dizendo por aí, que depois da tempestade, o sol sempre aparece.  Pode acreditar, pode abrir a janela, vai.  O tempero especial vem por último mesmo. Assim, Gran Finale.

-Ana Flávia Sousa

sou a ré.

Então tá bom, vem cá e me ajuda a colocar estes pingos em todos os is que existem neste mundo, que de tão moderno continua antiquado. Vem cá e me diz por que me enganei acreditando  que existia valores mais importantes que cultivar a história de que a união de dois corações, é coisa que aqui se deve aqui se paga. Queria muito saber aonde foi parar o orgulho sentido durante tantos anos que deu lugar a dor dilacerante de agora. Movimentos femininos e a luta por direitos, insignificantes. Achei que regras existiam apenas para dar espaço para as exceções. Sim, achei que era exceção. Quase arqueozóica, uma primitiva assumida, hoje extremamente decepcionada com costumes que nada acrescentam a um mundo tão moderninho, complicam, destroem. Machucam. Inscrições abertas para vasculhar vida alheia e julgar o errado. O certo não merece lugar no placar deste juri. Telhado sem vidro. E nós, ingênuos, permitimos esta exposição em massa. Concordamos em ser marionetes. Deixamos que o nada de humilde desejo de perturbar alheio (opinião), concretize o objetivo único: Incomodar. Uma preocupação aguda de agradar a quem pouco importa com nossa felicidade. Não quero. Com este tamanho todo, costumamos crescer em maturidade também, por mais incrível que possa parecer. Mais incrível ainda é que fora desta modinha atual que sou, amante assídua de passados belos, antiquários, sebos e brechós, fico escandalizada com atitudes tão pequenas diante dos verdadeiros tesouros que possuímos em nossa vida. Por mais que quisesse passar uma Meia Noite em Paris e reviver as épocas mais encantadoras da história, Belle Époque, é difícil acreditar que a evolução acontece apenas no papel, a prática continua estática naquele tempo em que o lençol deveria ser mostrado após o Sim.  Patético. Tantos acontecimentos transformados em maturidade guardados na bagagem. Tanta lição tirada de tantos livros lidos. Tanto respeito aprendido, repassado, vivido. Tanto amor doado, trocado, sentido. E o único resultado que parece ser esperado é aquela bonequinha de cristal que a sociedade adora julgar. Por pensar um pouco diferente do que julgam certo. Por seguir tão fielmente seus sonhos e seu coração. Ré.  Poxa, sou tão maior que isto. Somos.  Gigante em nossas convicções, sonhos e realizações.  Agora vem cá e me responde porque estas pessoas também não cultivaram aquele valor de se casar por amor, como antigamente? Porque estas mesmas pessoas se tornaram tão egoístas, que quando pensam em dividir uma vida com outra pessoa, não há mais espaço. O ego era grande demais. Me diz porque não existe mais essa história de construir sonhos em conjunto? Essa de sonhar junto pra se tornar real? Me diz porque família hoje é investimento, e filhos custam caro. Me diz então, como era possível naquela pobreza de tempos atrás se criar dez, quinze e até vinte filhos? Sabe o que é? A época do superego. A época do: Sou melhor que você. Sabe, se quer cultivar valores de antigamente, cultive os mais importantes. Porque somos melhores e maiores internamente, com atitudes tão nobres e puras que superam qualquer dor no peito, qualquer decepção. Cultive amor. Viva amor. Divida amor. 

histórias de menina.


Não é assim tão simples. Um projeto leva um tempo pra ser realizado. Você pesquisa as obras análogas, se encanta com cores, formas, brilhos, e muda de opinião drasticamente, antes que os olhos pisquem novamente. 
Quando pequena sim, era fácil. Num instante se tornava possível a construção de castelos encantados em meio a bosques misteriosos. Com lápis de cores, um arco-iris e a esperança de um tesouro. A garotinha tinha o contador de  histórias de aranhas e cavalos e jacarés, o seu rei! As princesinhas, contos e fábulas, brincadeiras de meninas, alimentadas eram pela rainha soberana. E mesmo assim queria crescer, independência. Ir além das muralhas daquele reino distante. Sonhar. Naquela época ela podia se dar a esse luxo, abusar e ousar com a imaginação.  Devia ter aproveitado, se agarrado com muita força aos cinco anos. Agora me diz, qual dos pecados mortais é sonhar depois que as bonecas ficam para trás, e o porta-retrato de um casal feliz é colocado no lugar?! Porque se perde a capacidade de voar sobre jardins de girassóis a medida que a responsabilidade começa a pesar sobre os ombros?! Ah menina, não pensa bobagem, acorda! Depois que cresce e esconde os vestidinhos no fundo do armário, será possível alguém que sonha junto?! Talvez ali, escondido.
Grande menina, grandes sonhos e grande amor! Ela sonha mais que tudo, mais que quando menina criança. Sonha verdadeiro. Sonho que pesa mais que saudade de chumbo nas costas, e carrega mais felicidade que um aquário de coráis. Um dia a disseram que poderia ser princesa, que escolhesse. Mas não. Ela já tem características demais, apenas dela, imagina colocar mais uma dentro de um corpo só?! Sendo ela e os sonhos, ela é todas as princesas, vive todas as lendas e passeando em todos os mundos distantes da tristeza. Menina mais adormecida, que bela. Mais borralheira, que gata e mais branca, que a neve. Sonha. Dorme e acorda. Sonha acordada. Ama dormindo e dorme amando. A menina, antes dama, hoje volta a imaginar um sonho mais alto. Arquitetado em conjunto. Realizado. 

um café e um minuto.



Se a pressa é inimiga da perfeição, minha vida é o diabo a quatro de tão desprovida de sintonia que é. Metade de um ano já foi dormir nas profundezas da memória e as horas do meu dia agora simplesmente botaram na cabeça que precisam treinar maratona, de tanto que correm. Ando carente de instantes dando sopa. O tempo de um banho demorado, para o corpo se renovar. Um momento reservado único e exclusivo para que a leitura de um livro se complete e o fim da história de revele. Um atraso no relógio para um chamego a mais no namorado, para que os pés de mantenham um pouco mais aquecidos. Um fim de semana de quatro dias para que a alegria de estar perto da família dure um momento a mais. Quem sabe algumas horas disponíveis para se dedicar a irmã mais nova, que anda sentindo sua falta? Se me dessem quinze minutos, seria o tempo de uma máscara capilar, para os cabelos se mostrarem deslumbrantes. Nem correr mesmo, ali na Praça da Liberdade, não tenho tempo. Nem parar pra desesperar e chorar com tantos afazeres, estou podendo. Careço de um tempo de uma conversa fiada com os amigos, palavras ao vento. E verdade seja dita, doze horas a mais por dia ajudaria a efetuar os projetos acadêmicos mais brilhantes, e poupava um pouco dessa de dizer que não temos talento. Temos muito talento sim, o que nos falta é tempo. Não me falta amor. Não me falta querer estar perto. Não me falta vontade de ajudar o amigo. Não me falta bom humor. O que me falta é um relógio que ande num compasso menos frenético.
É o mal desta era totalmente fast! Hoje, o macarrão é instantâneo e vem em copo e fazer amor, virou a rapidinha. Amigos estão ali, atrás da tela do computador porque não temos tempo de sair de casa, pegar um ônibus e ir vê-los. Celular? Aparelho eletrônico criado pra matar saudade. É a era em que muita gente só se importa em ter muito dinheiro na conta bancária e se esquecem de guardar valores na dispensa da vida. Porque o tempo de hoje, é dinheiro.
'Melhor perder um segundo da vida que a vida num segundo', dizia Vovó'Dete antes que seus filhos entrassem no carro rumo às cidades aonde moravam. Se hoje ela estivesse aqui eu pensaria, mas não lhe diria que 'Ninguém tem mais este segundo pra perder Vovó'. O mundo está constantemente com status de ocupado! Batalhando. Correndo atrás do relógio para conseguir realizar tudo bem feito e no prazo certo! E na visão dos conhecidos, seu status é o de sumido. É assim, há certos objetivos na vida que nos impõem certas condições e o fim da vida social é uma delas.  
 Não há no dia, um milésimo de segundo sequer ocioso. E não venha me dizer que não faço nada das duas às seis da manhã, porque faço sim. Ando ocupada sonhando que posso descansar depois de um dia cheio. Ando sonhando que um dia essa correria será recompensada. Uso este tempo pra colocar a cabeça no pause, pra não ser a pessoa mais lerda do mundo no dia seguinte. Talvez seja um pouco complicado de entender, mas há algumas necessidades pessoais que estão gritando por um pouco de atenção, e dormir é a maior delas. Egoísmo? Talvez. Eu só gostaria muito, se não for pedir demais, de ter aquele momento pra chamar de meu. Mas esta recompensa anda mais concorrida que Mega Sena de fim de ano. Este outro, que está quase aqui.
E seguimos a caminhada em busca daquele tão falado lugar perto so sol, dia após dia fazendo tudo numa inércia só. Desenvolvendo habilidades de fazer mil e uma coisas no mesmo minuto e ainda estar bonita, apresentável; mantida por um só combustível: o café. Extra-forte. Um tic-tac incansável na cabeça e a lista mental de afazeres diários recebendo um X de tarefa cumprida a cada segundo. Sem contar que ainda tem aquele coelho branco com seu relógio de bolso na mão me avisando desesperadamente do meu horário, sempre atrasado. 

Salve, salve o grande poeta Cazuza porque o tempo: " O tempo não para".
http://www.youtube.com/watch?v=7AkEQM9AdEY



O texto está um pouco grande, desculpem. Um obrigada especial pra Luh, que se identificou com o escrito antes mesmo se estar finalizado. :*


 



Ana Flávia Sousa Silva

































deixa a chama acesa.

' minha fé em pó solúvel' 




Eu não sei qual parte da história eu perdi, quantas páginas do Livro de cabeceira deixei de ler e nem quando fiquei assim, desconfiada. Mas aconteceu, e não conto isso como vantagem, pelo contrário ando um tanto envergonhada com tudo isso. Tenho carregado nas costas o peso extra do vazio, da culpa do abandono. Logo você? Sim, eu. Desconheço motivos, já cansei de analisar as situações passadas para descobrir um sequer. Nada. A verdade é que só encontrei razões para acreditar! Para ser aquela pessoa esperançosa outra vez. Acredito até que muita gente deveria fazer uma faxina mental como a minha e descobrir a graça de se estar assim, vivo. Da memória, vi não só os tombos que levei, mas principalmente Tua mão estendida pra mim. Me senti acalentada como criança por não esquecer que Teu ombro amigo esteve sempre disponível para um coração ensanguentado se curar. E antes de tudo isso, sem ao menos saber o que receberias em troca me deu o dom da vida, e como se não bastasse me presenteou com a família mais maravilhosa que alguém pode querer ter. Aos poucos conheci os anjos que me enviaste para que eu não caminhasse só e desamparada, descobri que poderia chamá-los de amigos, amores, professores, anjos. E toda noite, antes que o sono vença mais essa batalha, agradeço. Por ontem, pelo hoje, presente, e confio no futuro, pois Te tenho comigo. Não nego que peço a Ti bem mais que mereço, faço e agradeço, mas não é por mal (não vou jurar, me ensinaram que é feio), é que tenho essa mania de esperar demais, complicar demais, idealizar demais e esquecer desse meu não-talento de conjugar aquele verbo de ação. Ando em falta não só Contigo, mas com a pessoa que mais me ensinou a Crer em Ti, vovó. Ando assim, sentindo falta dos sonhos em que ela me abraçava e eu a sentia, uma vez mais e aí a saudade declarava uma trégua. Ando um pouco fora de rumo, sem a beirada da eira, sem saber se estou sendo ouvida, mesmo quando nada digo. Falta grave esquecer a voz dela, tão doce e carinhosa. Sua caridade e fé inabalável me impressionavam tanto, tanto. Expedito, o santo, ou está de férias merecidas ou por ela estar mais perto, está trabalhando dobrado, hora extra  de tanto que era chamado, pedido, implorado para resolver as causas até então impossíveis. Gostaria era de pedir perdão, sem pedir.. Pois senti na pele a ausência da minha fé, adormecida. Senti na alma a dor de ser pecadora. Reclamei sem necessidade tantas e tantas vezes, e hoje repudio atitudes assim, inclusive as minhas quando volto a fazer. Mas peço sem vergonha que não me abandone. Imploro quanto preciso for para que não desista de mim. Hoje acredito poder até me orgulhar, pois foram tantos que tentaram me convencer do oposto e me fazer acreditar a não acreditar. Sinceramente, não consigo imaginar a vida de uma pessoa sem Ele, nem a minha. Não a imaginava sem minha avó também, mas hoje a sinto como sinto Deus, no coração. É um calorzinho gostoso aqui no peito quando penso nela! 


Ana Flávia Sousa Silva