O balé sempre foi uma questão na minha vida: nunca fiz, sempre admirei, sempre amei e sempre lamentei não ter feito. Não faço ideia de como começou esse fascínio pela dança clássica, talvez seja por causa das caixinhas de música, mas é muito provável que tenha sido com o filme Soldadinho de Chumbo, criança corrompida pela Disney que fui. Os tutus e sapatilhas de ponta estavam nos meus sonhos, mas nem mesmo nunca consegui fazer um alongamento correto, muito menos cheguei perto de uma abertura, mas sempre gostei de pronunciar Plié.
Quando menor, até entrei pra academia de dança que oferecia o mais próximo disso lá no interior, mas de balé mesmo, não tinha nem o andado. Acho que a gente pode até ter aprendido primeira, segunda, terceira, quarta e quinta posição, mas acontece que as aulas se desvirtuaram e acabaram se transformando num grupo de dança de axé. Sim, axé. Mas eu adorava, porque era o única coisa relacionada à dança que estava ao meu alcance e minhas melhores amigas também participavam, acabou sendo uma experiência nossa, entende? Não faz muito tempo, uma amiga da faculdade me levou para uma aula experimental de balé, amei mas fiquei uma semana sem conseguir me mexer direito, tanta dor que eu sentia. Acabou que me mudei de perto da escola e deixei de novo essa vontade pra trás. Desde criança, sempre fui a mais alta e desajeitada da turma e a tentativa de ser dançarina não consertou muita coisa, sigo desequilibrada, sem noção de espaço e estabanada ao extremo e isso me deixa muito frustrada as vezes, porque queria muito ter sido delicada, miúda, leve. Mas vezenquando ainda namoro aulas de balé pra adultos iniciantes e um dia, tenho certeza que vou conseguir conciliar com a vida de adulta e (re)começar a sonhar.
Estou falando tudo isso porque na última quarta-feira, Gabriel me levou a uma apresentação de balé pela primeira vez, e não foi nada menos que noite de estreia do Grupo Corpo, no Grande Teatro do Palácio das Artes. O Grupo está completando 40 anos e, apresentou pela primeira vez as novas coreografias: Suíte Branca, com música de Samuel Rosa e Dança Sinfônica, com trilha assinada por Marco Antônio Guimarães. Não sei vocês, mas apesar de ter estudado um pouco de arte, eu não sou muito boa em interpretá-la. A abertura foi com Suíte Branca e achei uma dança mais moderninha, até mesmo por causa da música de Samuel que tem uma pegada mais de rock. E já nessa coreografia, o que mais me chamou atenção foi uma bailarina pequena e miúda como eu gostaria de ter sido, que me lembrou minha antiga chefe, Natália, que foi bailarina clássica por muitos anos antes de se formar em arquitetura.
A bailarina que me lembrava a Natália fisicamente prendeu minha atenção durante todo o espetáculo, mas principalmente na coreografia de Dança Sinfônica, que na minha humilde interpretação, parecia ser de dor, de morte até e proteção também. A moça fez participações incríveis e em algumas ocasiões, a gente a via pequena no colo de um dos bailarinos, por muito tempo. Aquilo mexeu comigo porque interpretei assim, como proteção, medo e dor, até que ela e o seu colega, brilhantemente fecharam o espetáculo com uma cena linda, aonde ela vinha dançando-correndo de um lado do palco direto para o colo dele, no momento exato da última nota musical, perfeito. Que dia maravilhoso para estar ali, assistindo a tudo isso.
Saí do teatro maravilhada, apaixonada ainda mais por esta arte e logo tratei de mandar uma mensagem para minha ex chefe, dizendo que a imaginei lá e que surpresa boa receber de volta a notícia de que ela em breve voltará a dançar. Chegando em casa, fui vasculhar este mundo maravilhoso que é a internet em busca de maiores informações do grupo, para saber mais sobre aquela bailarina que agora tem nome, descobri: Sílvia Gaspar, bailarina clássica mais antiga do grupo, casada com um bailarino também de lá e mãe da Júlia e da Joana.
Júlia tem dez anos e Joana com pouco tempo de vida se descobriu com câncer. Sílvia foi tratá-la em São Paulo e assim, teve uma licença do grupo que deu todo o apoio que precisavam, mas infelizmente, ano passado Joana foi estrelar o céu. A pequena bailarina não sabia se voltaria a dançar, mas voltou um mês após a perda da pequena, o grupo havia dito que precisava dela, mas Sílvia diz que o grupo não fez isso por eles, fez isso por ela. Ao ler sobre ela e a coreografia, soube que o coreógrafo de Dança Sinfônica, Rodrigo Pederneiras, faz diversas homenagens a pessoas que de alguma maneira passaram pela companhia. Ele não fala, mas é possível ver que a na coreografia há um pouco de Joana, que viveu muito intensamente seu primeiro e único ano de vida dentro do grupo.
Aí, eu entendi aquilo que senti durante o espetáculo, o porquê de eu enxergar Sílvia miúda e carente de proteção, o porquê da tristeza interpretada e até, da raiva com situações incontroláveis e sacanas da vida. Eu vi Sílvia e a conheci como bailarina, mas admirei como pessoa e mãe. Ela não me conheceu, mas não precisei trocar uma palavra para que ela mudasse algo dentro de mim, apenas observei tudo o que ela tinha pra passar, pra chorar, pra sentir através da dança que eu sempre amei. Eu conheci Sílvia, a bailarina do Grupo Corpo, que usará a dança e o amor para superar dores insuperáveis e para manter viva nela e em todo mundo que a assistir, a pequena Joana, que renascerá em cada novo passo e sorrirá em cada rodopio.
BEDA 12|31