Gordurices.

17:15 Ana Flávia Sousa 13 Comments



Se fosse possível, eu daria um jeito de morar dentro da geladeira juro, ou da dispensa, ou do armário, ou onde houvesse bastante comida pra matar minha fome eterna, de leão. Nasci com o pecado da gula e com o estômago quase de avestruz, e ando pecando muito desde então. Cresci com essa mania feia de comer sem parar e trouxe essa compulsividade gastronômica pra tudo na minha vida. Parece que tudo é pipoca, daí encho a mão e como até chegar o fim, até ficar vazio pra eu ir lá encher de novo o pote. Parece que meus planos são feitos de milho, e esquentam, e estouram, e pulam, daí eu tenho que comer sem parar, depois vem a digestão, pra ponderar e colocar os pés no chão, e avaliar o quanto tô cheia, empanzinada de sonhos. Mas aí dona realidade aparece feito melancia pra gente, um chá aguado e encaroçado de puro desprazer, aí depois preciso até de lavagem estomacal, que é pra tirar todo esse acúmulo de idealizações do dia-a-dia e comer um querer mais saudável, mais aceitável.  É que eu como com os olhos, sabe como é? Tudo que minha visão permite enxergar, vai pro estômago da minha cabeça, e fica ali, até eu ter capacidade de digerir, tirar as vitaminas que ativam a criatividade e jogar o bagaço fora pra dar espaço pra mais e mais e mais outras coisas.  Mas o problema é que a insaciedade constante não me deixa descansar, fazer a sesta. Porque além de tudo, sou preguiçosa, tenho esse outro pecado que faz com que tudo ande devagar, contrariando as frenéticas formiguinhas famintas dentro de mim.  E pior, tenho olho gordo, no melhor sentido da expressão! Quero comer com os olhos tudo o que há no mundo de mais doce e terno. Aquelas gordurices bem coloridas sabe, que fazem sorrir nosso dia? E depois de tudo isso ainda confesso que sou viciada. Eventualmente me encontro bêbada por aí, depois de tomar um porre daquela sopa encadernada de letras e fico absorta em pensamentos depois de sentir aquele cheiro hipnotizante de página nova e de página guardada. Sou um saco ambulante de guloseimas sentimentais. Sinto a necessidade de matar minha fome a cada minuto, pra engordar a alma com pirulitos de ternura, lambuzar o coração só de muito carinho em calda e lotar o prato da nossa rotina com bastante bolo recheado de gentileza pra olha só: emagrecer a grosseria obesa desse mundo! Infinitos quilos de algodão-beijos-doces pra alegrar a leoa esfomeada que chamo de vida.

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:)

matraquinha.

17:19 Ana Flávia Sousa 9 Comments



O sol pode até estar nascendo lá atrás da montanha, mas meu sono continua no ápice da bondade. O despertador precisa ser avisado que precisa tocar mais de três vezes, fora a soneca de cada um, pra que meu corpo posso pensar em obedecer a mente, se espreguiçar e enfim, levantar pra mais um dia dessa rotina corrida que tem se tornado a vida da gente. Junto acorda uma contraditória  mania de querer tagarelar sobre tudo e com todos por aí, como se o abrir dos olhos fizesse com que a faladeira habitante do meu corpo despertasse do seu sono tranquilo. A língua parece que ganha vida própria e permanece o dia todo assim, descontrolada. As vezes é necessário usar a chavinha imaginária, trancá-la e jogar a chave bem longe, que é pra ver se o silêncio respira um pouquinho, aliviado. Sozinha na sala de trabalho, vez ou outra me pego falando sozinha, repetindo alto os afazeres do dia, os planos do amanhã, o lanche de mais tarde e imaginando a tal sonhada noite de sono logo mais, tamanha necessidade que é exercitar esse músculo bucal. Parece que o espírito da Emília ficou impregnado na minha vida, e que eu também engoli a tal pílula falante do Doutor Caramujo e que acabei de descobrir as palavras e que preciso reparti-las com todo o resto do mundo.  O namorado, coitado, quer ver um programa na televisão, escutar o jornal, prestar atenção no trânsito, mas a falação desenfreada continua até que um beijo é roubado ou um olhar repreensivo fica ali no ar. Mas incrível que essa agitação toda fique restrita apenas a língua, pois o corpo é arrastado ao longo do dia, preguiçoso que só. Duas faces de uma mesma moeda, e eu ficando louca entre elas. Sob a luz do luar ou um barulho de chuva, vou me aquietando, a mão buscando a outra mão pra segurar, e um ombro pra deitar todos os sonhos e descansar, cúmplices do silêncio, calmaria lunar. 

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:)